O homem que parecia calmo demais

Certos homens não chegam fazendo barulho. E talvez por isso sejam os mais perigosos.

Ele chegou sem pressa, e isso foi a primeira coisa que me incomodou.

Não era bonito de um jeito óbvio. Também não tinha aquele esforço meio patético de homem que entra num lugar já tentando convencer o ambiente de que merece ser notado. O charme dele estava em outro ponto. Mais perigoso. Mais limpo. Mais difícil de detectar logo de cara.

Era calmo.

E homem calmo demais sempre me faz prestar atenção.

Aprendi cedo que quase todo homem fala antes da hora. Com a boca, com a postura, com o volume, com a pressa, com a necessidade infantil de parecer alguma coisa. Os mais cansativos anunciam presença como quem bate panela. Os mais inseguros confundem intensidade com excesso. E os mais vaidosos quase sempre tropeçam no próprio teatro antes mesmo da sobremesa.

Ele não.

Sentou como quem não precisava vencer o lugar.

Isso, por si só, já me tirou um pouco do eixo.

Eu estava num bar de hotel em Ipanema, fim de noite, taça na mão, cabeça acesa e aquela preguiça elegante de mulher que saiu de casa sem expectativa nenhuma de se surpreender. Tinha aprendido, há muito tempo, que expectativa alta costuma ser só outra forma de carência bem vestida. Então eu observava o salão como quem já sabe o fim de quase todos os roteiros.

Homens olhando demais.
Mulheres fingindo não notar.
Copos subindo.
Risos fora de hora.
Desejos pequenos circulando em roupas caras.

O de sempre.

Até ele pedir um uísque e agradecer ao garçom com um tom de voz tão baixo que eu precisei olhar.

Foi aí que a cena começou.

Não porque ele fez alguma coisa impressionante. Mas justamente porque não fez.

Há homens que me despertam pelo gesto.
Outros, pelo rosto.
Alguns, raros, pelo silêncio.

Esse era do terceiro tipo.

Quando nossos olhos se encontraram, ele não sorriu. Também não desviou com a covardia educada dos que olham e se arrependem de ter sido vistos. Só sustentou um segundo a mais. O bastante para eu entender duas coisas ao mesmo tempo: a primeira, que ele tinha lido meu tédio; a segunda, que não pretendia me salvar dele.

Gostei disso.

Mulher nenhuma devia confiar demais em homem que parece solução. Mas um homem que não tenta se vender como resposta pode, às vezes, render uma noite muito melhor.

Virei o resto do vinho sem pressa, só para me dar tempo de pensar. Não nele. Em mim. Na qualidade exata da minha curiosidade. Porque desejo adulto, quando presta, não é impulso cego. É leitura. É corpo acendendo junto com a inteligência. É uma espécie de atenção mais funda que o tesão sozinho quase nunca alcança.

Ele continuava ali, inteiro, como se já soubesse que a pressa estraga as melhores cenas.

Eu odeio admitir, mas isso funcionou em mim com uma facilidade irritante.

Levantei primeiro.

Passei por ele como quem ia embora.

Não fui.

Parei ao lado do balcão, pedi outra taça e senti a presença dele chegar um segundo antes da voz.

— Pensei que tu fosse embora.

Não olhei de imediato. Sorri com o canto da boca, mais para mim do que para ele.

— E eu pensei que tu fosse falar cedo demais.

Ele soltou uma risada curta. Quase baixa demais para ser vaidade.

— Então começamos bem.

Começamos.

Foi ali, entre o meu tédio já derrotado e a calma perigosa dele, que eu entendi uma coisa antiga de novo: certos homens não entram na memória pelo que fazem primeiro. Entram pelo que conseguem impedir que a gente esqueça depois.

E ele, naquele momento, já tinha começado.

O que me atrai em um homem calmo demais

Homem calmo demais pode ser duas coisas: um poço ou um truque.

O problema — e a delícia — é que quase nunca dá para saber logo de cara.

Talvez por isso me atraia tanto.

Eu gosto de homem que não chega pedindo palco.
Que não fala alto para compensar vazio.
Que não precisa performar segurança como menino em fase de teste.
Gosto do tipo que parece ter entendido, antes dos outros, que presença não faz tanto barulho assim.

Mas calma também engana.

Já vi homem silencioso demais que era só emocionalmente truncado com boa postura.
Já vi homem discreto que, no fundo, era apenas covarde com embalagem premium.
Já vi homem elegante, contido, lento e bonito que, quando abriu a boca pela terceira vez, matou meu tesão como quem apaga vela com dedo molhado.

O perigo bom está em outro lugar.

Está naquele que é calmo porque não precisa correr.
Porque não mendiga leitura.
Porque escuta antes de avançar.
Porque mede o ambiente sem parecer calculado.
Porque sustenta o próprio eixo mesmo quando percebe que mexeu no teu.

Esse tipo de homem é raro.

E, quando aparece, eu noto.

Naquela noite, notei cedo demais.

E foi exatamente por isso que fiquei.

Kisses… Eva Adams.

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